Comício da desunião

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Em momento incendiário nos EUA, Trump tenta salvar reeleição e escolhe palco de confronto racial e arena fechada para o reencontro com sua base eleitoral.

Com o número de novos casos de coronavírus aumentando em 22 estados americanos e o movimento antirracismo energizado no fim de semana pela morte de mais um negro pela polícia em Atlanta, Donald Trump se apressa para virar a página e tentar salvar a reeleição.

No sábado, ele vai ao reencontro de seus partidários, no primeiro comício eleitoral pós-pandemia, para demonstrar que também é capaz de aglutinar uma multidão. Numa arena fechada, para 19 mil pessoas, que oferece todos os riscos oferecidos pela Covid-19 e impedem que o público americano assista até hoje a eventos esportivos.

Ânimos acirrados e estridentes no país, e o presidente se mostra surdo. Primeiro, escolheu o Juneteenth (19 de junho), feriado em que é celebrada a emancipação dos escravos do Texas, para reafirmar o compromisso com sua base eleitoral.

Foi convencido a adiar o comício para o dia seguinte, sábado, mas o local ainda permanece controverso neste momento incendiário dos EUA. Tulsa, em Oklahoma, foi palco, em 1921, de um dos confrontos mais marcantes da violência racial no país: 300 mortos e milhares de desabrigados após o ataque de uma multidão branca a casas e lojas de uma comunidade negra conhecida como “Black Wall Street”.

A 140 dias das eleições, pesquisas indicam que os ventos não sopram a favor do presidente, que está dez pontos atrás de Joe Biden e perde na grande maioria dos estados decisivos. Independentes rumam para o campo democrata, movidos por atitudes desastrosas de Trump.

Neste semestre atípico, ele negou as consequências da pandemia, desprezou a ciência e viu ruir o muro econômico que o escorava. Ignorou as primeiras reações à morte cruel de George Floyd em Minneapolis, que desataram os maiores protestos antirracistas desde 1968. O desagrado às políticas emanadas da Casa Branca estava claramente explícito nas manifestações que cruzam o país.

Quando finalmente o presidente deu as caras, foi para ameaçar mandar tropas para reprimir os protestos. Para mostrar que não estava escondido em um bunker, rumou a pé para uma igreja danificada nas imediações da Casa Branca, com um exemplar da Bíblia na mão, mas somente depois que a polícia limpou a área cercada de manifestantes.

O comandante em chefe dos EUA conseguiu um feito inédito em relação a antecessores: o desacordo público, e raro, de respeitados comandantes militares à sua gestão e ao uso político das forças armadas. No movimento apelidado de “rebelião de generais”, foram emitidos duros alertas de que democracia americana está em perigo, sob o mandato do atual presidente dos EUA.

Trump lidera uma nação conturbada por protestos, pandemia e desemprego. É pouco provável que use o simbolismo de Tulsa para promover a reconciliação. Falará para uma plateia que não está disposta a ouvir apelos por união e, muito menos, curar a ferida racial.

Fonte: G1 Globo




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