O desafio eleitoral de Trump

84

A pandemia e os protestos contra o racismo embaralharam as cartas da reeleição

Em meio à pandemia, é natural que a eleição americana tenha passado para segundo plano na atenção do público. Não deveria. Faltam apenas cinco meses – e o quadro que se desenha para a reeleição do presidente Donald Trump se tornou bem mais difícil do que o esperado. O novo coronavírus e os protestos contra o racismo policial levaram a uma reviravolta que favorece Joe Biden, candidato oficial do Partido Democrata desde as primárias do último dia 2.

Sempre é preciso lembrar: a eleição americana é indireta. Vence o candidato que obtiver 270 dos 538 delegados no Colégio Eleitoral, distribuídos de acordo com a população. Com duas exceções –Maine e Nebraska –, quem vence num estado leva todos os delegados dele. Trump, cuja popularidade nunca chegou a 50% e vem caindo nas últimas semanas (está em 41%), não precisa da maioria para vencer.

A estratégia dele sempre foi clara: repetir o desempenho de 2016, quando Hillary Clinton obteve 2,9 milhões de votos a mais – e perdeu. Se vencer nos tradicionais bastiões republicanos e mantiver a vitória em três estados do Meio-Oeste (Michigan, Pensilvânia e Wisconsin), terá votos suficientes no Colégio Eleitoral para vencer. Antes da pandemia, portanto, a discussão sobre a reeleição se concentrava nesses três estados, onde a vitória dependia apenas de Trump manter a preferência de um grupo demográfico: o eleitorado branco sem nível universitário. Daí o discurso voltado para a base fiel.
O essencial, para Trump, é convencer os eleitores desse perfil – predominantemente republicano – a comparecer às urnas nos três estados (ou a votar pelo correio). Para Biden, em contrapartida, o importante é convencer a votar eleitores das minorias tradicionalmente democratas, como negros ou latinos.

Era possível até afirmar que se tratava de uma eleição não para presidente dos Estados Unidos, mas para presidente do Wisconsin. Quem ganhasse lá teria provavelmente ganhado também no Michigan e na Pensilvânia – e, portanto, no Colégio Eleitoral.

Não mais. A pandemia embaralhou as cartas da eleição. O desemprego caiu 15% antes de recuperar um pouco, mas está por volta do dobro do patamar atingido depois da crise de 2008 – e bem distante do mínimo histórico, alcançado antes da chegada do vírus. Ficou mais difícil para a campanha de Trump apostar no discurso de que a economia vai bem.

No lugar disso, o debate nacional foi capturado por uma agenda essencialmente democrata: o combate ao racismo. O assassinato brutal de George Floyd no Minnesota – outro estado do Meio-Oeste onde Trump pretende ganhar – desencadeou a maior onda de protestos em cinco décadas. Trump copiou o discurso de Richard Nixon em 1968, crendo que o medo da violência e do quebra-quebra levará o eleitor conservador a confiar nele como candidato “da lei e da ordem”.

Só que a mobilização tende a levar mais negros, jovens e minorias a votar. Os públicos ofendidos pelos tuítes de Trump que repetem bordões racistas são exatamente os mesmos de que Biden precisa para derrotá-lo. Mesmo que não tenha uma ficha exatamente limpa aos olhos dos militantes contra a violência policial – Biden tem um histórico legislativo de apoio à polícia –, é ele a alternativa a Trump na urna.

Biden também já demonstrou a força de seus laços com o eleitorado negro nas primárias. Foi o apoio dos negros que o conduziu à vitória na Carolina do Sul e o fez recuperar a posição de favorito. Na semana anterior, poucos ainda acreditavam que ele pudesse derrotar a profusão de pré-candidatos democratas. Se a agenda da campanha eleitoral for ditada pelo racismo em vez do êxito na economia, Biden larga na frente com larga vantagem.
Sinal disso são as últimas pesquisas de opinião – ainda que obviamente prematuras para qualquer previsão. Na média mantida pelo site RealClearPolitics, Biden está 8 pontos na frente de Trump (no mesmo período de 2016, Hillary liderava por apenas 3 pontos). A dianteira é suficiente para pôr em disputa estados que não se acreditaria pudessem estar em jogo.

A campanha de Trump acaba de destinar US$ 1,6 milhões a Ohio, Iowa e Arizona, considerados bastiões republicanos (Ohio mais recentemente). Flórida ou mesmo a Geórgia, duas vitórias essenciais para o mapa trumpista, também já não parecem tão seguros. A esperança dos democratas se estende ao Texas, onde o partido não vence desde 1976. É improvável que todos esses estados sejam pintados em novembro de azul, a cor democrata, mas o mero fato de a atenção tenha se desviado do Meio-Oeste para eles traduz o desafio eleitoral de Trump.

FONTE: G1 GLOBO




Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *