O risco da segunda onda

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Exemplos da China, dos Estados Unidos e da Nova Zelândia servem de alerta ao Brasil

À medida que os casos confirmados de Covid-19 no Brasil se aproximam de 1 milhão, os sinais de desaceleração na curva de contágio transmitem a sensação de que chegamos a um platô e de que, em breve, a epidemia começará a ceder. Exemplos recentes na China, na Nova Zelândia e em vários estados americanos servem, contudo, de alerta para o risco de uma segunda onda em meio à reabertura de atividades econômicas.

Pequim anunciou na semana passada o primeiro caso transmitido domesticamente em 55 dias – um homem de 52 anos que decidiu fazer o teste para a doença por conta própria. O governo descobriu um foco no mercado de Xinfadi, aparentemente transmitido por salmão congelado ou pela tábua onde o peixe era cortado. Mais de 1.200 voos foram cancelados, escolas foram fechadas nem um mês depois de reabertas, 3,5 milhões de pessoas tiveram de se submeter a testes – e uma quarentena rigorosa entrou em vigor na cidade de 22 milhões.

Na Nova Zelândia, nem bem o governo confirmara que o país estava livre do vírus, duas passageiras que haviam chegado do Reino Unido testaram positivo depois de liberadas da quarentena. O caso demonstra o risco de infectados, ainda no estágio em que transmitem a doença, passarem incógnitos pelos testes aplicados nas fronteiras. De acordo com um estudo no New England Journal of Medicine sobre os testes que verificam a presença do vírus, conhecidos pela sigla RT-PCR, a probabilidade de um contaminado testar negativo chega a 30%.

O país em que pandemia apresenta um quadro mais semelhante ao Brasil são os Estados Unidos. O motivo são as dimensões continentais. O país vive várias epidemias simultâneas e, enquanto o contágio parece arrefecer num lugar, começa a explodir noutro. Os americanos atingiram o que se poderia chamar de “pico” da transmissão em abril, com perto de 35 mil novos casos diários. Desde então, contudo, não houve queda, mas uma estabilidade entre os 20 mil e os 25 mil novos casos por dia – e um total de quase 120 mil mortos em todo o país.

Os casos estão caindo em estados como Nova York, Nova Jersey, Illinois, Michigan ou Pensilvânia. Mas voltaram na crescer na Flórida e no Texas, onde os governadores Ron De Santis e Greg Abbott adotaram um planos prematuros de reabertura. Há sinais de que Geórgia e Louisiana também manifestem o mesmo padrão de contágio: alta nos casos depois de um platô ilusório. Ao mesmo tempo, estados como Arizona, Califórnia e Carolina do Norte continuam com a transmissão em fase ascendente.

É por isso que, no Brasil, é um erro olhar apenas os números nacionais, sem prestar atenção às características locais. Mesmo numa metrópole, como Pequim, Nova York, São Paulo ou Rio de Janeiro, a epidemia pode estar em ciclos diferentes dependendo do bairro ou da região. A complacência diante do platô pode ser fatal. Nas curvas epidêmicas, a fase de queda é mais lenta e dilatada que a subida.

Os sinais de que continua difícil deter a transmissão são visíveis para quem acompanha a taxa de contágio no Brasil. Conhecido como “número de reprodução” ou pela sigla R, tal indicador estima a quantas pessoas um infectado transmite o vírus. Quando está acima de 1, a epidemia se espalha. Quando cai abaixo de 1, desaparece natualmente. De acordo com os cálculos do Observatório Covid-BR, o R voltou a subir em São Paulo, Rio de Janeiro e Porto Alegre. Nas principais cidades acompanhadas, continua superior a 1.

O risco da segunda onda é ainda maior em virtude do conhecimento incipiente sobre o grau de imunidade conferido aos curados. A família a que pertence o vírus da Covid-19 é conhecida por não despertar reações imunes duradouras – tanto que volta e meia pegamos os mesmos resfriados, também transmitidos por outros coronavírus. A proteção conferida por eventuais vacinas estará provavelmente sujeita à mesma limitação (embora possa ser contornada com o acréscimo, para reforçar o efeito imune, de substâncias conhecidas como “adjuvantes”).

Outra dúvida diz respeito à extensão do contágio. Não se sabe quantas pessoas já pegaram o vírus sem apresentar sintomas. Todas as curvas analisadas na pandemia têm relação com a capacidade de testes – quesito em que o Brasil é notoriamente deficiente. Os testes de anticorpos em geral usados para estimar quantos já pegaram o vírus – ou a “prevalência” – são pouco sensíveis e podem subestimar a quantidade real de brasileiros já infectados.

Num novo estudo, ao analisar o caso de 37 infectados sem sintomas, pesquisadores chineses descobriram que eles continuavam a produzir resquícios do vírus por mais tempo que os pacientes que haviam manifestado a doença. Também verificaram que a chance de testarem negativo era maior que a dos pacientes com sintomas. “Os dados sugerem que os indivíduos assintomáticos têm uma resposta imune mais fraca”, escreveram na revista britânica Nature Medicine.

Se ficar comprovado que a baixa sensibilidade dos testes de anticorpos nos leva a subestimar a quantidade de brasileiros contaminados, a Covid-19 pode ser menos letal – e a segunda onda (ou a extensão da primeira) poderá se revelar mais fraca.

Se, ao mesmo tempo, a imunidade conferida aos infectados sem sintomas não bastar para protegê-los, não haverá como garantir isso. Não foi, é verdade, o caso dos pacientes estudados na China. Mesmo insuficientes para detecção nos testes rápidos, os anticorpos deles se mostravam aparentemente suficientes para neutralizar o vírus.

O sistema imunológico humano é complexo e dispõe ainda de linhas de defesa celulares, que têm se mostrado eficazes no combate à Covid-19. Nossa ignorância sobre a doença persiste. Os mistérios que ainda cercam o embate do organismo com o novo coronavírus e a dificuldade para medir a extensão real da primeira onda justificam toda cautela na hora de avaliar os riscos da segunda.

Fonte: G1 Globo




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