Um escândalo pré-fabricado

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Em livro sobre seu período na Casa Branca, o ex-conselheiro John Bolton dispara contra Trump

Um efeito colateral da presidência de Donald Trump foi a criação de um gênero literário próprio. Trump surgiu na cena política como personagem de reality show. Não surpreende que também seja visto como chamariz para a venda de livros, cuja qualidade errática quase nunca evita a profusão de manchetes.

Há os autores que se arrogam a objetividade jornalística, como o veterano Bob Woodward. Os que desfrutaram acesso privilegiado, como o especialista em fofocas Michael Wolff. Os que reivindicam o manto do insider, de quem viu tudo de perto, como os ex-assessores Cliff Sims, Sean Spicer, Sarah Sanders e a ex-aprendiz Omarosa Manigault. Os que evitam de propósito choques com o governo, como os ex-secretários H.R.McMaster e Jim Mattis. E aqueles que fazem do choque com Trump sua razão de ser.

É o caso da denúncia do ex-diretor do FBI James Comey, do relato do informante anônimo cuja denúncia resultou no impeachment de Trump e, agora, do livro do ex-conselheiro de Segurança Nacional John Bolton, cujo lançamento está previsto para a semana que vem. A obra já vem naquela embalagem clássica, pintada nos tons berrantes dos escândalos pré-fabricados. Em Washington, não se fala de outro assunto.

Para quem não lembra – foi num passado longínquo, antes que a palavra pandemia tomasse conta do noticiário –, Bolton saiu do governo no ano passado, em meio à confusão que resultaria no impeachment de Trump. O estopim foi uma negociação secreta com os talibãs no Afeganistão à sua revelia (leia mais aqui). O motivo real foi ele ter testemunhado a conversa fatídica com o presidente ucraniano, Volodimir Zelensky, em que Trump condicionava ajuda financeira (já aprovada no Congresso) a uma investigação para atingir Joe Biden, seu rival democrata.

Bolton não depôs no processo de impeachment na Câmara. Em janeiro, quando vieram à tona as primeiras informações sobre seu livro, confirmou que estaria disposto a falar no Senado (leia mais aqui). Só que Trump foi absolvido sem novos depoimentos. Desde então, o lançamento vem sendo aguardado com ansiedade.

De acordo com o excerto publicado no Wall Street Journal e reportagens nos jornais New York Times e Washington Post, a principal revelação do livro é que o o caso de Zelensky não foi o único. Trump costumava oferecer préstimos a autocratas ou ditadores em troca da satisfação de seus interesses pessoais. “O padrão parecia obstrução de justiça como um meio de vida”, escreve Bolton.

Fora o caso da Ucrânia, diz Bolton, Trump também fez pressão sobre o chinês Xi Jinping e o turco Recep Tayyip Erdogan. Usou, segundo ele, processos em curso nos Estados Unidos contra a empresa ZTE, da China, e o banco Halkbank, da Turquia, para fazer pleitos de interesse pessoal. De Xi, queria a compra de produtos agrícolas de estados do Meio-Oeste para, ainda segundo Bolton, ajudá-lo a ser reeleito.

Bolton também se diverte com a ignorância de Trump. O presidente americano descrito por ele imagina que a Finlândia faz parte da Rússia e não sabe que o Reino Unido tem um arsenal nuclear. Seu temperamento impulsivo quase o leva a atacar a Venezuela e a sair da Organização para o Tratado do Atlântico Norte (Otan). Pelas costas, todos riem de Trump, até o secretário de Estado Mike Pompeo (desafeto de Bolton, registre-se).

A visão neoconservadora de Bolton jamais combinou com o nacionalismo populista de Trump. Foi uma surpesa quando ele foi chamado para o governo. Os dois conseguiram até encontrar um campo de ação comum na ruptura do acordo nuclear com o Irã. Mas Bolton sempre foi um falcão intervencionista que defendia ações duras também contra a Coreia do Norte. Trump se revelou um isolacionista apaziguador, que resolveu, para desespero de Bolton, se aproximar do norte-coreano Kim Jung-Un.

A esta altura, o efeito do livro de Bolton deverá ser insignificante. O impeachment passou, as manchetes estão tomadas pelo novo coronavírus, e Trump já tropeça nas pesquisas eleitorais por conta própria, sem precisar da ajuda de ninguém. É uma incógnita se conseguirá se reerguer até novembro. É inevitável, porém, que novos escândalos pré-fabricados, decerto em novos livros, tentem atingi-lo.

Fonte: G1 Globo




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